Entrevista com o Grão-Mestre, Carlos Botelho e o confrade António Cabeleira

2009 Fevereiro 18
by Admin

Excertos da entrevista na Rádio Larouco (Chaves), publicada e transcrita no semanário  ”O Intransigente” de 16 de Fevereiro de 2009.

Nota importante:  Trata-se de uma transcrição e deve ser entendida  apenas como parte da entrevista radiofónica, e por isso com alguns conteúdos  a ressaltarem descontextualizados.

“Confraria de Chaves virada para os produtos e os produtores”

Os sabores e saberes flavienses são ímpares. Não admira, pois, que a região seja considerada como destino gastronómico de excelência. É, por isso, imperioso preservar a qualidade de produtos que deram nome a Chaves. Mas, mais imperioso ainda é conseguir levá-los bem para fora do concelho – para o país e o estrangeiro. São estes os fins a que se propõe a recém-formada Confraria de Chaves.

Dizem os de maior idade que… “no saber ninguém parte”, numa clara alusão ao facto de que tudo pode ser roubado ou destruído, excepto a nossa riqueza interior, o nosso saber. A Confraria de Chaves resulta de uma iniciativa individual, assumida depois por um conjunto de personalidades flavienses, com vista à preservação do saber fazer e à promoção dos produtos regionais. Surgem à cabeça o folar, o pastel e o presunto, mas… outros mais há. É uma associação sem fins lucrativos, que foi criada há pouco tempo, mas tem dado passos firmes e seguros rumo aos objectivos a que se propôs. É uma equipa liderada por Carlos Botelho, o Grão-mestre, com quem Tribuna Livre esteve à conversa.

TL – Carlos Botelho é artista, está ligado às Ciências da Comunicação, e a residir Almada, sente-se, acima de tudo, flaviense…

CB - Gostaria de referir que a questão da residência que se levantou em determinada altura, em que foi algo complicado, porque afigurava alguém a querer “roubar os produtos da região”, tudo uma enorme falácia. Existe sim uma residência em Almada, mas também existe uma residência em Chaves e, acima de tudo, existe o ser flaviense, que está a cima de qualquer outro interesse. E é bom que se saiba que nesta altura não existe qualquer contenda com qualquer entidade que seja. Estamos todos neste momento de mãos dadas num projecto comum que é a Confraria de Chaves.

TL – Faça-nos um breve historial da confraria.

CB - A constituição da confraria teve alguns processos mais morosos, por algumas questões que se prendiam com a  necessidade de encontrar intervenientes que não tivessem conotações políticas. A política é nobre, quendo exercida dessa forma. Mas, a confraria tem uma política própria,  bem patente nos seus estatutos. Não existe uma única entidade nos órgãos sociais da confraria, que é absolutamente isenta, também a nível religioso – aceitamos naturalmente pessoas de todos os credos. Depois da assinatura da escritura, no dia 21 de Novembro, marcou-se a apresentação formal para esta feira, sobretudo para se ter contacto com a realidade dos produtores. Constituíram-se os corpos sociais, com 25 elementos [...]  As pessoas podem consultar em confrariadechaves.com quem são, e comprovar que merecerão todos os créditos, pois são figuras eminentes, não querendo referir absolutamente nenhuma.

TL – Eu permito-me, para satisfazer em parte a curiosidade de quem nos ouve, dizer, a título de exemplo, que o Grão-Conselheiro do Capítulo Geral  é o Dr. Júlio Montalvão Machado, verdadeira enciclopédia viva desta cidade, uma referência…

CB - Naturalmente,  que sim. Tal como a Dra. Maria de Lurdes Campos, que não estando nos corpos sociais é uma peça fundamental em todo este processo e naturalmente o António Cândido Cabeleira, o Dr. Carlos Guerra [...]  todos. Todos os que estão na confraria irão ter oportunidade de mostrar a sua capacidade de trabalho, que é para isso que lá estão.

TL – Confraria esta que é um instituição sem fins lucrativos com o objectivo da promoção dos produtos regionais…

CB - A confraria vai dar credibilidade aos produtos da região e vai tentar certificá-los. Todos sabemos o quão difícil é, em termos legais, consegui-lo [...]  A autarquia tem tentado desde há muito tempo [...]

TL – Está-me a falar da Identificação Geográfica Protegida?

CB - Por exemplo… É uma das condições para que esses produtos sejam verdadeiramente protegidos, não só através da marca, o que está neste momento a ser tentado, e se não for para nós não será para mais ninguém. Falo em termos de marca, que tanta polémica fomentou [...]

TL – É a própria confraria que está a tentar registar as marcas?

CB - Neste momento podemos dizer que sim, uma vez que como Grão-mestre da mesma  o fiz antes de ser eleito e uma das minhas promessas foi que aquilo que estava a fazer o fazia já em nome da confraria. E como sou um homem de palavra – essa é a minha maior riqueza – defendo-o intransigentemente.

TL – O que é necessário para qualquer produtor aderir à confraria?

CB - Como em qualquer associação, existem requisitos mínimos para que a ela se possa aderir. A Confraria de Chaves apesar de não ser uma instituição vulgar, mas de referência,  não pretende fazer discriminação;

[...] pretende ter nas suas hostes produtos reconhecidos por nós, certificados;

[...] criámos uma linha de apoio (808, custo de chamada local),  para que possam cumprir os requisitos mínimos e depois possam representar, com bandeira no ar, produtos da região com toda a sua genuinidade.

Não faria sentido ser de outra forma.

TL – 808, número azul. Quem é que o produtor tem do outro lado da linha?

CB - Do outro lado da linha terá uma voz que o irá acompanhar e lhe dará em 24 horas respostas às questões que coloca.  Existe um protocolo com a autarquia no sentido de através do Gabinete de Desenvolvimento Local dar uma resposta cabal ao problema no espaço de 24 horas. Muito em breve, estará disponível.

TL – Outro dos protocolos já assinados foi com a Adega Cooperativa de Chaves [...]

CB - A Adega está na minha vida bem marcada por ter sido local de trabalho do meu pai  e ter feito parte da minha infância. É uma das cooperativas mais bonitas do país. Quando vi o stand da cooperativa no evento dos Sabores e Saberes, achei que estaria algo [...]

Foi o que me motivou a entrar em contacto no sentido de ajudar. O protocolo que estabelecemos foi convidá-los a desenvolver um produto novo, de referência, que nós possamos levar aos nossos encontros gastronómicos, para brindar com algo da cooperativa, o que será uma excelente ajuda para a imagem e futuro da mesma.

TL – Muito em voga estão os negócios na net… E a confraria terá um portal gastronómico on line?

CB - Sim, porque a estratégia de actuação da Confraria de Chaves não se vai resignar aquilo que por norma temos visto e vemos nas confrarias, confinadas a encontros gastronómicos. Nos dias de hoje, não é o que os produtores mais anseiam.

Como a Confraria de Chaves está virada para os produtos e produtores, entendemos que esses encontros só por si não servem a causa.  Por isso, elaborámos um plano de actividades que  já teve início com a participação na feira. A elaboração do site resulta dos protocolos que a Confraria pretende celebrar.

E congratulamo-nos por um desses protocolos ser  com a Associação Portuguesa de Hotelaria, Restauração e Turismo, que conta no seu seio, desde 1904, com cerca de 5000 sócios, dedicados à restauração, hotelaria e turismo. Será a principal batalha: colocar os produtos da nossa região ao seu dispor.

TL – Haverá produção para uma procura tão alargada?

CB - Penso que não. Deixo uma palavra particularmente aos emigrantes, que muito em breve vão poder encontrar produtos da sua região, com o selo da Confraria de Chaves, produtos genuínos. A esse propósito, estive  27 anos em Lisboa,  queria um folar de Chaves e não sabia onde o ir buscar. Mas, mais grave é sentirmo-nos emigrantes na nossa própria cidade [...]

TL – Emigrante em Lisboa e em Chaves…  Faz sua a letra da canção do Roberto Leal, do português brasileiro?

CB - Não. Referia-me mesmo só ao facto de não se encontrar um lugar para comprar um presunto genuíno e não haver um espaço de referência para esse produtos local. De resto, na minha terra sinto-me em casa.

TL – Muito trabalho aguarda a Confraria.

CB - Sim, mas contamos com o apoio institucional, da autarquia, através de um subsídio e de uma sede cedida no Mercado Municipal, e alguns possíveis patrocínios. Contudo, a acção da confraria é mais vocacionada para a comercialização porque a qualidade dos produtos é um dado adquirido. Por outro lado,a chancela da confraria será o garante da genuinidade e qualidade, pela investigação e promoção. Queremos levá-los através da internet a todo o mundo. Já existe também essa loja on line, através de um parceiro que é a Loja do Confrade, que pretende ter no circuito o melhor da região.

TL – Que balanço faz da participação no evento do passado fim de semana?

CB - Foi a primeira vez que a confraria,  de forma informal, em meio-traje, esteve presente. Serviu, essencialmente,  para uma tomada de conta da realidade dos produtores e fornecer informações sobre a confraria.

TL – Será a Confraria a organizar o certame do próximo ano?

CB - Tudo aponta nesse sentido segundo o presidente. Também temos marcado para breve o Primeiro Capítulo da Confraria de Chaves, com confrarias convidadas e em que iremos ser entronizados  [...]

TL – E é para quando a entronização?

CB - Não há uma data concreta, porque há ainda muitos passos a dar que não vale a pena especificar, mas penso que dentro de dois a três meses será feita a primeira entronização. As manifestações de interesse e as inscrições on line indicam que a Confraria de Chaves deverá ter imensa projecção. Sinto muito orgulho neste projecto, até porque tinha havido várias tentativas de criação de uma confraria em Chaves e, curiosamente, ela não se concretizou. Gostaria aqui de convidar todas as pessoas que nisso tentaram, a fazer parte desta nossa Confraria. Mas, ainda em relação ao Plano de Actividades para 2009, referiria a adesão à Federação Nacional de Gastronomia Portuguesa; ao Conselho Europeu de Confrarias; a I Feira Agro-Biológica de Chaves; a I Festa da Colheita, que permitirá fazer uma celebração das colheitas; um evento dedicado ao folar, com projecção internacional; a criação de um ciclo de vídeos, intitulado “O Ciclo da Terra”, porque, quer queiramos quer não, é a terra que nos dá tudo; a presença na “Alimentaria Lisboa”, que é a feira de maior visibilidade da península ibérica; a publicação de uma revista dedicada a actividades gastronómicas e culturais da região; e a instituição de prémios ao produtor, prémios de fotografia; e terminar com uma gala para atribuição destes mesmos prémios.

TL – Fale-nos da escolha do patrono.

CB - É-me muito grato entender que uma confraria tem de ir beber à terra a sua origem, com as vestes dessa mesma individualidade [...]  Encontrei em Tito Flavius Vespasiano a referência para poder criar algo que pudesse projectar Chaves, porque nos identificamos muito mais com ele do que propriamente com o camponês. Tito protegeu Chaves e deu-lhe fama, ainda hoje usufruímos do trabalho que ele fez, gostaríamos que daqui a 2000 anos, evocando esse mesmo espírito se falasse eventualmente na Confraria de Chaves (risos), como tendo feito um trabalho pioneiro no panorama gastronómico nacional e que sirva de referência para outras confrarias, com o trabalho semi-profissional que vai realizar.

TL – O traje, o ritual das confrarias encerram um certo encanto…

CB - É mesmo assim. É no ritual que está presente todo o espírito da confraria, simbolicamente representado, é certo, por objectos, por símbolos, por tudo isso, que tanta estranheza por vezes causa às pessoas. Cada símbolo representa a terra e Chaves. Não compreendem neste momento, mas compreenderão mais tarde.

TL – Há aqui mão do Carlos Botelho artista no design dos símbolos da confraria?

CB - Sim, está nesta simbologia espelhada toda uma experiência gráfica, de vida  e de sentimento flaviense de anos. É o que espelha a espada que tanto representa para nós na região; é o que espelha o monte, a água,  a espiga, a gota de suor ou lágrima [...]

TL – Tem algo a acrescentar ao que já aqui foi dito?

CB - Muito haveria para dizer.  O que quero deixar claro como Grão-Mestre da Confraria é que estou consciente da responsabilidade que me assiste neste momento. Deixo uma palavra de apoio a todos os que sentem falta dele. Temos as portas abertas para que possam vir ter connosco, tirar dúvidas. Queremos ter produtos genuínos. Queremos mostrá-los ao mundo acima de tudo, pois por cá cada família terá o seu quinhão de produto regional. O consumidor final é emigrante  [...]  que chora quando ouve falar da sua terra e dos seus produtos, cresce-lhe água na boca e era esse desejo que gostaria de saciar com a nossa acção.

António Cabeleira, vice-presidente da Câmara,  é também confrade signatário da Confraria de Chaves.

TL – Já se justificava a Confraria, senhor arquitecto?!

AC - Sim, já se justificava de há uns anos a esta parte. Só agora se conseguiram reunir as vontades, para se constituir, na medida em que todos sabemos que as confrarias em Portugal são um bom instrumento para a promoção dos produtos locais. Chaves tem, produtos gastronómicos de nome nacional e internacional de sobra. Este instrumento já deveria ter sido utilizado para fazer a promoção dos mesmos.

TL – O Grão-Mestre evidenciou que há muito trabalho em curso. Não se dará o caso de haver depois procura para uma oferta sem capacidade de fazer face aos pedidos?

AC – Isso pode ser de facto um problema. Devemos todos enaltecer o trabalho elaborado pelo signatário principal e Grão-Mestre, Carlos Botelho, porque tem tido um empenho extraordinário, primeiro, na concretização da confraria e agora no desenvolvimento das suas actividades. Sei que tem tido inúmeros contactos de pessoas a pedirem presuntos de Chaves para os comercializarem no país e estrangeiro. Infelizmente ainda não temos produção organizada, capaz de satisfazer esses pedidos, mas é concerteza um bom incentivo para os nossos produtores saberem que,  se produzirem uma quantidade determinada, têm escoamento garantido e isso é importante.

TL – Também está a ser paulatinamente aumentada a rede de cozinhas regionais?

AC - Exactamente. As actuais cozinhas regionais e mesmo as explorações particulares, que não têm esse carácter de cozinhas tradicional poderão através da confraria e de toda a visibilidade que a confraria vai dar aos produtos locais, ser um veículo extraordinário para a promoção e venda dos produtos. Nós tivemos o cuidado – os signatários da confraria – de não a associar a um produto em concreto, mas sim à cidade. Porque Chaves é rica em vários produtos. É mais fácil até no estrangeiro, onde há muita emigração, com o nome da confraria colocar em locais de venda garantida o que tão bem sabemos produzir e temos de saber comercializar.

Entrevista por: Elisabete Fernandes

In O Intransigente

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