Em defesa da língua de Camões

2008 Novembro 13
by Admin

Arquivo A Voz de Chaves: Edição de 26-09-2008

Sociedade

Em defesa da língua de Camões Carlos Botelho volta a surpreender

“Revolucionou” a região do Alto Tâmega quando anunciou o pedido de registo das marcas do Pastel de Chaves e do Presunto. Hoje prepara-se para dar um passo bem maior, em defesa da língua de Camões e fundou a Wikilusa, uma enciclopédia livre e para todos, onde o objectivo é criar um espaço de partilha e repositório de informações sobre Portugal, as suas regiões, a sua gente e seus costumes. O projecto diferencia-se de todos os outros já existentes por privilegiar a utilização dos conteúdos em Português de Portugal, vincando uma posição bem forte contra o acordo ortográfico.

Carlos Botelho é um flaviense radicado na capital que não esconde a sua paixão pelas raízes. Sempre que entende, nem que seja para “espicaçar” as atenções para determinados assuntos, mostra-se bastante activo e “desafia” mesmo o poder.

A Voz de Chaves voltou a entrevistar o pintor e escultor que não esconde a sua paixão por Chaves e para além de falar do seu novo projecto, não se escusou em responder a questões relacionadas com os pastéis e presunto de Chaves, que tanto abalaram a cidade.

A Voz de Chaves – A Câmara Municipal de Chaves, ao que conseguimos apurar, avançou com um pedido de registo das marcas Presunto de Chaves e Pasteis de Chaves. Vai contestar?

Carlos Botelho – De forma alguma, embora tivesse toda a legitimidade e argumentos legais para o fazer. Não existe nem existiu com a autarquia qualquer antagonismo nesta matéria, uma vez que lutamos por causa comum em promissora parceria.

Existiram sim constrangimentos já ultrapassados a par de alguns percalços mediáticos, mas que no computo final resultam numa mais valia para os produtos, as marcas e a região. Recordo mais uma vez que o objectivo final do registo de uma marca comercial, tanto destes como de outros produtos, é a sua protecção, condição esta garantida já, inicialmente por mim e agora pela Autarquia e com o meu apoio.

Continuando com o processo, neste momento, preocupa-me mais o desenvolvimento da Confraria e as estratégias que permitam promover as marcas, independentemente do seu titular.

VC – Fale-nos sobre este processo que tanto mexeu com a população, que chegou a pensar que os pastéis iam deixar de ser de Chaves?

CB – Tendo parte do objectivo consumado, o passo seguinte é a constituição da Confraria de Chaves, em desenvolvimento desde 1996 e do interesse também do Município.

Posso aqui deixar a informação efectiva da sua constituição e apresentação pública para muito breve onde oportunamente, será divulgada as principais linhas e estratégias de actuação. A comissão instaladora constituída então, convocará publicamente e para o efeito, uma conferência de imprensa onde poderão estar presentes todos os interessados.

Como é sabido, a Confraria de Chaves tem consagrada na génese a defesa, promoção e divulgação dos produtos tradicionais e, de uma forma geral, dos usos e costumes da região de Chaves, nomeadamente os produtos gastronómicos, tradicionais e culturais. Ela representará os seus associados e a região, na defesa dos seus interesses perante entidades oficiais e outras associações afins, nacionais e estrangeiras.

Quanto ao “pânico” instalado penso que perante uma notícia incompleta, oportunista e sensacionalista só podia advir um juízo errado. As terras do “Demo”, são normalmente pródigas e vulneráveis a situações destas, nas quais rumores e alaridos florescem como cogumelos, e são terreno fértil para quem nada faz. Não será alheio a tudo isso o eventual aproveitamento de algum actor social ainda mal identificado, cujo objectivo seria bem claro. Nada disso intimida o projecto.

O mediatismo e a propagação a nível nacional da questão das marcas levantou o mote e há já hoje reflexos e resultados em produtos de outras regiões. A teledifusão nacional através de notícia em destaque ao longo do dia 10 de Julho, teve de facto muito desmérito, sobretudo pela falta de rigor jornalístico, contudo contribuiu e serviu de alerta para a situação de Chaves, que reflecte de um modo geral o panorama nacional.

Em contacto com algumas das principais Câmaras nacionais e breve contacto com a Confederação Portuguesa de Confrarias Gastronómicas, que representa cerca de 50 confrarias, foi possível perceber exactamente o mesmo e o imenso trabalho a desenvolver em matéria gastronómica, de forma concertada e o interesse da Confederação num modelo de desenvolvimento por mim já apresentado.

Sob pena da contínua despromoção das “marcas” nacionais no hostil mercado global, espero que também aqui Chaves e a sua Confraria possa dar cartas e desempenhar um importante papel.

VC – Na maioria das vezes as Confrarias têm participações das autarquias. Concorda com isto ou defende que deve ser autónoma?

CB – A Confraria de Chaves tem tido apoio da autarquia flaviense ainda que tímido, estando em tramite o processo oficial de apoio.
Como referi já, para a prossecução dos seus fins, a Confraria actuará com total independência e isenção, quer política quer religiosa.

Conta com a natural e prometida participação da Autarquia nos seus órgãos sociais, não apenas com estatuto de Membro Honorário na pessoa do seu presidente, mas também como entidade “Protectora”, uma das qualidades de mérito atribuídas a confrades singulares ou institucionais que com total transparência e zelo defendam e apoiem a mesma causa.

A Confraria de Chaves será um parceiro estratégico não apenas da Autarquia, reconhecendo-a como o responsável máximo pelas políticas de desenvolvimento local, mas também dos produtores e das associações que se identifiquem com o projecto, que serão recebidas de forma igual e fraterna. Não esqueçamos que uma confraria é uma irmandade vinculada pelos princípios, e consagrados em juramento público realizado em cerimónia ritual própria.

VC – Na Câmara de Chaves tem tido o devido apoio ou… os “anticorpos” também prejudicam o andamento dos projectos?

CB – Creio que se refere ao atraso e algum mediatismo e que parece contribuir para o atraso do projecto. Não entendo isso como resultado de algum anti-corpo, embora omni-presente, mas sim ao facto de se ter gerado uma ideia errada quanto a essa questão.

Se alguém ganharia com isso quero acreditar que não, aliás Chaves e os produtos é que certamente não. Quanto ao projecto Confraria está para lá de qualquer interesse individual e funciona pelo colectivo, razão suficiente para que qualquer “anticorpo” minimamente esclarecido, entenda o processo como uma inevitabilidade.

Carlos Botelho voltou a ser arrojado e avançou para a WikiLusa. Esta é a única enciclopédia no mundo a disponibilizar uma plataforma biográfica aos seus utilizadores, em articulação com a rede de vídeo Youtube proporcionando uma experiência pioneira, quer a nível de edição, quer de consulta aos conteúdos enciclopédicos.

A WikiLusa, ao que conseguimos pesquisar, integra, de forma fácil, avançadas funcionalidades interactivas, como filmes vídeo, permite rápida edição do texto, projectando-se também aos domínios do som e da imagem.

VC – Como surgiu esta arrojada ideia?

CB – A Wikilusa surgiu da necessidade de criar uma alternativa à Wikipédia, a maior enciclopédia do mundo, e cujos conteúdos têm vindo através da participação de editores brasileiros, a sofrer alterações tais, que textos originalmente portugueses são revertidos para um brasileiro arcaico.

Permite que artigos e textos originais portugueses sofram essa reversão mercê das regras da plataforma, resultando em claro prejuízo da língua portuguesa disponível On-line. Como sabemos a Wikipédia é o site mais consultado também para pesquisas e professores e académicos bem o sabem, o que atesta bem a importância desta matéria.

Como se não bastasse e para ajudar, surge do limbo e do silêncio, a ratificação de um acordo ortográfico de 1990, que não reuniu consenso em dezoito anos, e que de obsoleto foi abandonado, tirado da cartola por um ministro cuja “marca” histórica pretende ser a submissão da língua portuguesa ao domínio de 200 milhões de brasileiros e do hábil estratega, Lula da Silva.

É sabido que nós portugueses até gostamos do Brasil, gostamos de telenovelas, da Gabriela e outras como ela, mas, será plausível hipotecar o que “resta da nossa língua”, último reduto da nossa identidade em prol de coisa tão vã? Claramente que a resposta será não.

Em causa própria a Wikilusa surge exactamente, numa causa nacional que também é pessoal e partilhada por milhões de portugueses, que também aqui nesta matéria viram negada a oportunidade de se manifestar, exactamente naquilo que têm de mais genuíno, a sua língua.

É o acordo em desacordo. Precisamente pela indignação decorre neste momento um Manifesto em forma de petição online, contra o Acordo Ortográfico e dirigida ao Ex. mo Senhor Presidente da República Portuguesa, o Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa, e ao Senhor Primeiro-Ministro de Portugal, uma petição que já conta com 95.000 assinaturas e reflecte uma pequena parcela do descontentamento gerado nesta matéria referente aos últimos quatro meses.

Estes números referem-se apenas à pequena parcela de portugueses que têm acesso a computadores e destes, aqueles que têm conhecimento de causa. Não quero acreditar numa apatia conhecedora e generalizada normalmente tão bem aproveitada pela esfera política. Mérito reconheço a alguma comunicação social que nestas matérias se tem revelado como o garante do alerta popular e que tantas vezes faz mudar o rumo dos acontecimentos.

Quanto à petição, esta foi subscrita inicialmente por reconhecidas individualidades da área das letras, da política e da cultura portuguesas entre os quais destaco, António Emiliano, António Lobo Xavier, Eduardo Lourenço, Helena Buescu, Jorge Morais Barbosa e ainda, José Pacheco Pereira, José da Silva Peneda, Laura Bulger, Maria Alzira Seixo, Mário Cláudio, Paulo Teixeira Pinto, Raul Miguel Rosado Fernandes, sem esquecer o Vasco Graça Moura, o Vítor Manuel Aguiar e Silva, ou a Zita Seabra, a quem se juntou o poeta e inigualável deputado Manuel Alegre.

O Manifesto basicamente denuncia as «imprecisões, erros e ambiguidades» na projectada reforma ortográfica, que se considera «mal concebida», «sem critério de rigor», «desnecessária» e «perniciosa», e de ter «custos financeiros não calculados».

O Acordo Ortográfico serve apenas interesses políticos e económicos do Brasil, pretende abrasileirar a ortografia de muitas palavras do português europeu com a justificação de facilitar o relacionamento, ainda que isso possa custar perda de identidade linguística e milhões de euros em novas publicações.

VC – A WikiLusa utiliza o software estável Mediawiki, utilizado também pela Wikipédia , mas com conteúdos essencialmente em português de Portugal. Vai ser seu concorrente?

CB – O projecto diferencia-se da Wikipédia por privilegiar a utilização dos conteúdos em matéria e em português europeu. Muitos dos artigos são baseados na Wikipédia mas são depois normalizados de acordo com o livro de estilo e já atingiu os 20.000 artigos.

A WikiLusa.com é também a única enciclopédia no mundo a disponibilizar uma plataforma biográfica aos seus utilizadores, sem os critérios de notoriedade e admissibilidade impostos por uma comunidade esmagadora brasileira, que domina a plataforma Wikipédia, democratizando-se e assumindo-se como uma plataforma verdadeiramente Livre e portuguesa.

Com este instrumento, podemos homenagear as gentes e locais da nossa terra que por qualquer razão não tiveram espaço mediático que não fosse a memória individual ou colectiva. Foi implementada na sua funcionalidade, uma ferramenta em articulação com a rede de vídeo Youtube proporcionando uma experiência única, quer a nível de edição, quer de consulta aos seus conteúdos.

Por exemplo, é possível, agora enquanto consulta a biografia escrita de Carlos Paredes, ler, ver e ouvir o seu vídeo e poder avaliar o artigo, pontuando-o de um a cinco. Com a rápida edição do texto permite contribuições abertas que resultam num fenómeno colectivo sem precedentes. É um espaço gerido pela comunidade onde prevalece o positivismo e a regra de bom senso.

VC – A WikiLusa pode ser vista e editada por qualquer pessoa e os conteúdos facilmente pesquisáveis? Até onde pretendem chegar com este projecto?

CB – A wikilusa acredita ser um conceito de depuração dos conteúdos relativamente ao universo de temas e línguas existente hoje na Wikipédia. É um espaço comum na partilha de informação cujo conceito “wiki” constitui sucesso hoje no mundo.

Este é um projecto nascido da vontade de colocar à disposição do público português os recursos necessários para a criação de uma plataforma de acesso livre a conteúdo editorial específico sobre Portugal e as suas particularidades, num plano integrado e estratégico de desenvolvimento das regiões, criando um espaço privilegiado para a defesa e divulgação das pequenas e diversificadas riquezas regionais, na massificadora sociedade da informação.

Para que isto seja possível, a Wikilusa é promovida e apoiada pela. Confraria de Chaves, que fornece os meios tecnológicos e Know-how necessários para a comunidade desenvolver livre e gratuitamente o projecto.

É um espaço de partilha, investigação e validação de informações capazes de poder despertar a consciência colectiva para assuntos como por exemplo, a naturalidade de Luís de Camões que provavelmente terá nascido Flaviense.

Outros reclamam a sua origem embora sem referencias credíveis, e quem sabe através das múltiplas ligações que as wikis permitem seja possível que alguém venha a lançar a pista ou informação relevante capaz de revelar o acontecimento.

Em contraponto com os manuais de história habitualmente assinados por um só autor e que reproduzidos se multiplicaram nas virtudes e nos defeitos, o modelo Wikilusa escreve a história em tempo real, e em total transparência. Os seus registos são guardados num histórico, não permitindo que informação alguma introduzida seja perdida.

Para terminar direi, quando o que se impõe é recompor uma herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores primordiais de acção é o esforço conjunto e solidário na consolidação desse mesmo objectivo.

Quero expressar ao Jornal A Voz de Chaves, o cuidado e o rigor que tem pautado o seu nobre exercício, nem sempre fácil, que é o jornalismo de informação.

Por: Paulo Silva Reis

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